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O que é Cuidado Paliativo?

Por Jamerson de Carvalho, médico geriatra.



Frequentemente, nós médicos, nos deparamos com situações onde os esforços no tratamento curativo parecem não mais conseguir seus objetivos. Até mesmo o controle sobre as doenças crônicas, até então mitigadas por tratamentos tradicionais fogem ao controle. Nesse momento, onde todas opções por mais eficazes que pareçam apenas prolongarão a vida de maneira artificial e muitas vezes com grau máximo de sofrimento ao paciente, chega o momento de falar sobre cuidados paliativos. Segundo a Organização Mundial de Saúde o cuidado paliativo é definido como ” o cuidado total e ativo de pacientes cuja doença não é mais responsiva ao tratamento. O controle da dor e dos problemas psicológicos, sociais e espirituais são a base do tratamento. A meta do cuidado paliativo é fazer com que o paciente tenha melhor qualidade de vida possível para si e para seus familiares”. Palavras como cura, alta e investigação são substituídas por conforto, higiene e dignidade. Monitores e exames tomam foco secundário à ausência de dor e relacionamentos. É uma mudança do foco do tratamento, e não a ausência do mesmo. Paliar é tratar não apenas com as mãos, mas com o coração: avaliar e pesar o sentimento que une o médico, a família e o paciente. Regras do ” tudo ou nada ” não se encaixam nessa visão de tratamento. Em vez do preto ou branco há uma série de tons em cinza entre os extremos. Essa analogia nos ensina que há varias formas de exercer esse tipo de abordagem. Cabe a cada doente ser definido entre família e corpo médico o que é melhor em cada situação, isso quando o enfermo não pode responder por si devido ao seu estado de saúde atual. Nesse ponto a opinião da família se faz mister, em especial de um membro mais próximo. Apesar de todas as decisões serem partilhadas entre todos, é importante eleger um membro da família que possa ser referência para equipe médica no tocante a decisões e o acompanhamento longitudinal. Optar por cuidados paliativos é uma decisão delicada e demanda tempo: para assimilar, refletir, conversar e informar. Esclarecimento é outra pedra angular. Estar informado do quadro clínico, tentar se informar do que pode acontecer e programar-se aos momentos mais difíceis torna o processo menos doloroso e conflituoso. A paliação não é uma sentença de pouco tempo de vida em alguns casos. Não apenas doentes criticamente enfermos necessitam dessa decisão mas aqueles nas quais a evolução progressiva e sem possibilidades terapêuticas ao médio e longo prazo se impõe. Dessa forma, doentes ainda com plenas capacidades cognitivas de decisão podem ser informados e optar como desejam viver o eclipsar dos seus dias. Assim D. Alzheimer, D. Parkinson, cânceres, doenças cardiológicas e pulmonares limitantes dentre tantas podem ser incluídas. Baseados na importância do tema tem crescido o interesse e sua divulgação. Seja através informação, estabelecimento do cuidado paliativo como especialidade, ou através de suporte legal/ético as decisões de final de vida. Nesse contexto, o Conselho Federal de Medicina, através atos normativos tomou medidas que dão suporte e encorajam médicos e pacientes. O cuidado paliativo não pertence a nenhuma especialidade. Ela é uma opção de interface entre todas as formas de cuidar do ser humano. E abrange não apenas aspectos biológicos, mas também espirituais e tudo que compõe o nosso universo de valores. Todos os aspectos devem ser levados em conta para decidir e seguir adiante. Assim como mudar, sair do cuidado paliativo, é sim uma opção plausível desde que haja vontade expressa ou ausência de consenso na tomada de decisão entre os familiares. Numa sociedade pós-moderna, tecnológica e impessoal, a morte nunca pareceu tão longe e objeto de vitória. O ambiente cultural, de forma imperceptível, nos leva a negar que morreremos. Isso se expressa no medo de falar sobre o tema. Há uma censura evidente em falar ao doente do seu morrer. Nesse afã troca-se palavras, a morte vira o óbito, a realidade é trocada por eufemismos. Entender o fim e tão importante quanto as demais etapas das nossas vidas. Definitivamente somos de uma geração que não sabe morrer.

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